Daphne Du Maurier - A Pousada da Jamaica



UMA POUSADA MAIS DO QUE SUSPEITA...

Daphne du Maurier
Título Original: Jamaica Inn (1936)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 260
Sinopse: 'A Pousada da Jamaica' é uma obra-prima do romance de mistério, que se passa na Cornualha no ano de 1820. Mary Yellan, uma jovem de vinte e três anos, vê-se obrigada, após a morte da mãe, a ir viver com uma tia num local ermo e isolado onde esta, juntamente com o marido, explora a Pousada da Jamaica. Mas Joss Marlyn, o marido da tia Patience, é um homem obscuro e violento, e uma atmosfera ameaçadora e sinistra envolve aquele lugar. Suspense, paixão e aventura numa obra reveladora da capacidade única de Du Maurier para captar o espírito perturbador, quase sobrenatural, dos locais que elege como cenário dos seus romances.


ANALISANDO...
Embora estando um bocado irritada com a saga do plágio de Du Maurier (LEIA AQUI), tive que dar mão à palmatória: a senhora inglesa era uma boa escritora de romances góticos. Ao lado de Catherine Gaskin, Dorothy Daniels (esta só conhecida pelas adoradoras de romances água-com-açúcar), Bram Stoker (inigualável), Sheridan Le Fanu (autor da noveleta que inspirou o "Drácula" de Stoker) e Emily e Charlotte Brontë, tomei gosto pelo estilo sombrio e dramático de Du Maurier e resolvi ler todos os livros dela que, por acaso, eu encontrar pela frente.

Esse livro me veio às mãos através de um sebo e considerei uma raridade (para mim). É uma edição antiga, de Portugal, 1974, mas estava em ótimo estado. Ponto para mim.


A trama está bem abaixo de "Rebecca" e "Minha Prima Raquel", porquanto carece da profundidade, do entrelaçamento perfeito entre suspense, personagens, mistério, conflito e clímax, como ocorreu com os dois livros citados. Mas é um romance curioso, instigante, traz à tona a velha Inglaterra das herdades (fazendas, sítios, chácaras), dos camponeses, dos homens brutais, das famílias conservadoras e das mulheres fortes... e de outras, nem tanto assim.

A jovem Mary tem que morar com uma tia, irmã de sua mãe, após a morte desta. Imagina que sua tia Patience era a mesma moça bonita e alegre que conhecera na infância, e qual não foi sua surpresa ao chegar à tal pousada, que em tudo fazia lembrar a mansão de Whutering Heights -- os ventos úmidos, a casa envelhecida e sombria, os charcos e pântanos em torno, uma neblina desgraçada de tão densa... Entretanto, o drama desse pequeno romance é menos denso que as tais neblinas.

A tia Patience é uma mulher envelhecida, trêmula, fazendo o leitor pensar numa senhorinha pálida e de olheiras fundas, tremendo feito vara verde ao menor berro do maridão. Este, Joss Marlyn, de cara aparece diante de nós como o típico "macho-opressor", de quem as feministas fazem alarde. É enorme, feio, abrutalhado, um verdadeiro Neandertal. A mocinha fica assustada, mas como boa camponesa que era, soube enfrentar a alegria grosseira e as piadas de mau gosto do sujeito com altivez.

Logo a trama toma forma, com um mistério surgindo aos olhos aterrados de Mary. E ela não vai sossegar até descobrir tudo, mesmo que isso lhe custe a própria liberdade. Nada teme, nem Joss com suas tramas malignas, seus comparsas da pior espécie, os pântanos e charnecas tristonhos que cercam a horrorosa morada. E há até um pequeno triângulo amoroso, formado por Mary, Jem Merlyn e Francis Davey, o pastor local.


É um romance de suspense, tal como a maioria dos livros de Du Maurier, mas tem aquele toque de estranheza, sombras densas em cada página, nos fazendo ansiar pela página seguinte -- onde as sombras se dissiparão... mas não acontece. Não é exatamente um livro de terror, mas os apuros que Mary e Patience enfrentarão o tornam quase isso. 

Outro dado importante para a mulherada que gosta de romance-rosa: Sim, tem uma trama romântica, embora eu mesma tenha considerado a protagonista uma doida varrida, uma doida de pedra, uma completa alucinada por ter dado aquele passo e aquela escolha.

Vale a pena a leitura.

Carolina Nabuco X Daphne Du Maurier: A SUCESSORA e o plágio REBECCA



A Sucessora
Carolina Nabuco
Ano: 1934 / Páginas: 244
Idioma: português 
Editora: Ediouro

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Rebecca 
Daphne Du Maurier
Ano: 1938 / Páginas: 396


Eu li e reli A SUCESSORA e agora, terminei de ler REBECCA. 

Tornei-me fã da grande Carolina Nabuco quando, ainda adolescente, li uma versão de bolso da Ediouro que eu comprava pelos correios: Era um livrinho pouco maior que a palma de minha mão. Eu assistira a novela global "A Sucessora"(1934), onde Suzanna Vieira interpretava Marina e Rubens de Falco - bonitão, bigodudo, com os faiscantes olhos azuis - era perfeito como Roberto.

Suzanna Vieira e Rubens de Falco em 'A Sucessora'

A novela despertou-me a curiosidade para o livro que a inspirara e eu pus-me à correr atrás do mesmo. Percebo que hoje, tristemente, não existe mais nenhuma nova edição de "A Sucessora", coisa que me deixa muito chateada. O Brasil esquece-se de todos os seus grandes vultos do passado, incluindo tanto personalidades políticas, militares, imperadores, quanto escritores, filósofos e artistas. Um caso flagrante é o do filósofo Mario Ferreira dos Santos -- totalmente esquecido, enquanto nulidades como Jean Willys, Marilena Chauí e aquele médico "entendido em presídios" (o contratado pelo Fantástico), Drauzio Varella, fazem fortuna rabiscando bobagens.

O fato é que Carolina Nabuco escreveu um bocado, embora não tantos romances quanto eu gostaria. Mas os dois que escreveu, "A Sucessora" e "Chama e Cinzas", são belos, sendo que o segundo pode se equiparar ao de qualquer clássico romântico da literatura mundial. E quase NINGUÉM o conhece! Você, leitor, o conhece? Não? Por favor, se não leu, procure-o em sebos ou na biblioteca pública mais próxima. É lindo.
Voltando à história da jovem Marina, que se casa com um milionário (Roberto) e é "assediada" pelo "fantasma" da falecida esposa -- fantasma metafórico -- , o romance da brasileira Carolina é mais singelo que o outro, o que disseram ser "inspirado" nele, da inglesa Daphne Du Maurier, "Rebecca".

É óbvia a cópia da história, com uma ou outra variação, mas pasmem: até dois personagens de Du Maurier, justamente os criados de Menderley, tem os nomes de dois personagens de Carolina: o mordomo Robert (Roberto) e a criada de quarto Alice (Alice, primeira mulher de Roberto). A inglesa também plagiou toda a temática da jovem esposa do viúvo maduro, a história da obsessão de Marina por Alice, a vida transformada da mocinha do interior (no caso de REBECCA, da dama de companhia tímida), o sutil mistério que envolvia o palacete carioca (no caso de REBECCA, a mansão Menderley), etc. 

Fiz questão de ler os dois, um em seguida do outro e comparar. O romance brasileiro -- o que originou o outro, que aliás arrebanhou até duas estatuetas do Oscar, no filme "Rebecca, a mulher inesquecível" -- é muito mais curto, com personagens bem trabalhados, algumas tiradas tragicômicas (com o primo Miguel), descrições bonitinhas do cenário rural onde vivia Marina, do Carnaval carioca nos anos 1930, etc.  Já o outro, embora tenha 'sugado' os principais temas da história (o viúvo aparentemente inconsolável, a mulher morta cuja presença persiste na mansão onde vivera, os parentes do marido, todos 'fascinados' pela lindíssima e charmosa defunta, o grande quadro onde ela está e cuja magia envolve a todos, etc.), é mais longo e envereda, do meio para o fim, para uma trama de suspense e mistério dignos das melhores histórias de detetives.

Por esse motivo, o livro de Carolina passa meio que batido, sendo considerado meramente uma "inspiração" para o outro.
O que ocorreu, então?


Muito bem, Carolina Nabuco escreveu o seu romance e o publicou no Brasil, em 1934. Como quisesse vê-lo publicado também no exterior, entrou em contato com um editor inglês, enviando-o já traduzido para o inglês. O livro foi recusado. Curiosamente, Daphne Du Maurier lançaria o seu "Rebecca" quatro anos depois (1938), pelo mesmíssimo editor que recusara o de Carolina.

Caso idêntico aconteceu com o livro do brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011), "Max e os Felinos" (1981), plagiado pelo escritor canadense Yan Martel no seu "As Aventuras de Pi". Mesmo com cenários, contextos históricos, trama, etc., bastante diversos, é óbvio - ÓBVIO, sim - que foi um plágio. Moacyr Scliar, mesmo com a intenção de referir-se alegoricamente à "ditadura" militar brasileira (o jaguar no bote seria a tal 'ditadura'), foi lesado. Outro brasileiro cuja propriedade intelectual - A IDEIA - foi escandalosamente roubada, transformada em livro, o livro em filme, o filme aclamado mundialmente e... tudo acabou em pizza.

Será que se fosse o contrário, se Carolina Nabuco e Moacyr Scliar tivessem plagiado os estrangeiros, tudo teria acabado em pizza? Óbvio que não.
Moacyr Scliar fala aqui do plágio e de toda a polêmica gerada:


Resumo da ópera: Os brasileiros tiveram as ideias originalíssimas e, graças à "inspiração-cópia", os outros usaram e abusaram das ideias, transformando-as à seu bel-prazer, inserindo aqui e ali outros personagens, polindo uma ou outra ideia, alargando, colocando mais ação sobre a trama, criando suspense, criando mais mistérios, acrescentando mais pimenta, mais tempero, mais... mais de tudo. E transformaram as obras copiadas em bestsellers mundiais. Honesto isso? Claro que NÃO. 

Posso garantir que REBECCA é um livro fantástico. Não o nego. Tem no seu âmago a ideia inteligente que Carolina Nabuco gerou, tem quase os mesmos personagens (Germana, a irmã de Roberto, está presente também em "Rebecca", em Beatrice (irmã de Max) bem como Julia, a governanta mau humorada, que no livro de Du Maurier se transforma na autêntica vilã, Sra. Danvers). Até o baile de Carnaval descrito poética e delicadamente por Carolina está no livro da inglesa, transformado é claro, num baile à fantasia.


Laurence Olivier e Joan Fontaine, em 'Rebecca'

Não nego que REBECCA sugou todas as boas ideias de A SUCESSORA e acrescentou mais, muito mais. É, no fim das contas, mais que o romance psicológico de Carolina: é um verdadeiro romance gótico, ambientando na sombria e altaneira Manderley, mansão gótica encravada na  exótica costa da Cornualha. Além disso, tem um bom suspense, uma protagonista e um mocinho cheios de charme e mistério. O romance de amor também está presente, pois que de início o casamento entre "a narradora" (nunca é citado o nome da moça, tratada apenas como Mrs. De Winter ou segunda Mrs. De Winter) parece frio, apático. Maximilian de Winter, o marido, parece tratá-la com a mesma ternura negligente que dedica aos seus cães favoritos e é sempre com afagos na cabeça da esposa, um beijinho na testa, um toque no braço, etc, que ele revela seu amor. Isso também é um mistério, já que a Esposa julga-o ainda "apaixonado" por Rebecca, a inesquecível... 

Quando ela resolve fazer excurssões pela propriedade e vai até as praias mais distantes, encontra coisas... fareja mistérios... e o desfecho da história é bastante similar aos melhores romances de detetive, com pitadas de terror gótico, tendo a sinistra Sra. Danvers protagonizado a vilã típica.



Entretanto, sempre nos fica aquele travo amargo, mesmo quando vibramos com a boa história. Está certo que tudo mudou no final da trama, tendo o livro de Carolina ficado meio como que "insosso" se for comparado ao seu plágio. 


Mas é nosso patrimônio cultural e tem sua graça, sua beleza típica no estilo narrativo, uma nostalgia envolvente quando fala do delicioso Brasil de outrora, suave, ora refinado entre os ricaços, ora puro encanto agreste, ao descrever a fazenda da família de Marina:

O administrador seguiu-o, mais devagar, subindo a pequena inclinação do alto da qual a casa dominava o vale todo, larga e nobre na sua simplicidade de quadrângulo, tão vasta que uma boa metade nunca se abria, e cercada das dependências, das construções decadentes vin­das dos tempos prósperos da escravidão; de um lado o terreiro de tijolo onde secavam o açúcar e o café; a pequena enfermaria; as oficinas de car­pinteiro e de ferreiro; ao meio do declive, as cachoeiras, ao fundo, a rua da senzala com a pro­miscuidade dos casebres onde outrora os escra­vos viviam; e descendo a inclinação, de um lado o engenho moedor, e de outro a torre da capela surgindo humildemente no meio das manguei­ras velhas que davam sombra ao cemitério e dos eucaliptos que o demarcavam. Ao longe, o rio, que, antigamente, nos tempos prósperos, antes da Abolição, conduzia o café até o porto e que hoje, sem utilidade, sem trato, com o leito entu­pido, se perdia nos charcos da baixada.
O sol sumia-se com pompa atrás dos morros. Passou um preto velho, manquejando, em busca da capela, para ir tocar o Angelus. Lançou a Marina a saudação da tarde: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”
Ela respondeu: “Para sempre seja louvado.”

E neste trecho, onde Adélia, prima de Marina, comenta sobre a beleza de Alice, a inesquecível:
Na vida de todo dia, a intimidade de Alice se desvendava por uma série de pequenos indícios, reveladores de traços novos a acrescer ao muito que Marina já sabia dos seus hábitos e do seu caráter.A primeira vez que viu a letra de Alice, na folha de rosto de um livro, tivera a percepção, pela altura dos traços e o tamanho das maiús­culas, de um grande orgulho, traço que Marina odiava. Mais tarde encontrou a confirmação dele numas palavras que Alice escrevera, por ócio, através da folha de cima de um bloco de papel de carta: “O orgulho é meu pecado e a lealdade minha virtude.”Descobriu também, gravada no mesmo pa­pel de correspondência, em prata sobre cinza, a divisa de Alice, irmã da sua: Fidelis usque ad mortem... Por fragmentos de conversa que ou­vira citar familiarizara-se com algumas ex­pressões prediletas de Alice e essas, inconscien­temente, iam-se introduzindo no próprio voca­bulário. Sem o saber, imitava Alice, como Laurita, Adélia e outras a haviam imitado em vida. A grande sedução de Alice, que Marina sen­tira primeiro por intermédio de Adélia, conti­nuava a exercer-se, mesmo através da estranha inimizade. Envolvia-a agora de todos os lados como um aroma irresistível. O prestígio exer­cido sobre sua meninice não fizera senão crescer com a familiaridade nova, com a avaliação do amor que Alice soubera inspirar a Roberto e da mestria com que ela se desempenhara dos deve­res que agora cabiam a ela, Marina. Não encon­trara ainda uma só voz divergente, no coro de elogios.Uma vez Marina perguntou a Adélia, mos­trando o retrato:— Você ainda conserva a mesma admira­ção por ela?— Por quem? Por Madame Steen? Con­servo. Acredito que, se eu a visse hoje, eu a acharia a mulher mais elegante que eu já vi e uma das mais bonitas.


O livro de nossa Carolina Nabuco, por menor ou menos loquaz, com uma trama mais simples ou o que for, terá sempre o privilégio de ter criado Marina e Roberto Steen, um dos casais mais charmosos da nossa literatura e, claro, da televisão brasileira, pela novela da Rede Globo, exibida no período de 09/10/1978 a 03/03/1979, da autoria de Manoel Carlos.

Taylor Caldwell - Médico de Homens e de Almas


Sinopse:
A Bíblia apresenta São Lucas como o médico de coração generoso, bem instruído e autor de um dos evangelhos e do Livro de Atos. Lendas antigas o descrevem como uma pessoa fora do comum, a quem são atribuídos milagres e prodígios antes mesmo de sua conversão ao cristianismo. Em 'Médico de homens e de almas' Taylor Caldwell combina estas duas imagens de um dos mais importantes da igreja cristã primitiva, caracterizado pela constante preocupação com o sofrimento de enfermos, oprimidos e pobres. A autora pesquisou a vida e as obras de Lucas durante anos, e as descreve de forma romanceada num livro rico em detalhes históricos e de narrativa emocionante.

Ano: 2012
Páginas: 699
Idioma: português 
Editora: Record

UM ÉPICO HISTÓRICO E CRISTÃO
Hoje farei uma resenha que foge um pouco ao tema desse blog: romance histórico, que vale a pena conhecer.

Lucas ou Lucano, era um médico grego, nascido em Antioquia - antiga Síria

Como vou descrever o que senti, durante a leitura desse profundo, poderoso, colorido e comovente drama histórico? Será que posso classificar esse livro enorme e muitíssimo bem escrito, como bestseller? Até posso, com uma observação: A maioria dos romances de Taylor Caldwell foram, há décadas, classificados assim, mas hoje podemos dizer que se encaixam entre os clássicos. Já estou me preparando para pegar outro drama histórico, "O Grande Amigo de Deus" (a história romanceada de Paulo, o apóstolo). 

A autora capricha nas descrições, que são vívidas, palpitantes, quase melódicas, quase pinturas, tal é a impressão de nitidez e de tal forma somos transportados para dentro da história! É como sentíssemos na pele as aflições de Lucano (ou Lucas, o evangelista), durante os seus anos de ateísmo, depois de incredulidade e, finalmente, do homem que encontra o que sempre buscou. É como se em cada página, rica de episódios comoventes, se desenhassem as cenas de um filme cuja intensidade e profundidade nos prendessem a elas. Vejam essa descrição:


Antioquia, como sempre, era um turbulento lodaçal de cor, calor e fedentina. Novas frotas vindas do Oriente e de outras terras estranhas mantinham-se no porto azul e fulgurante, suas velas brancas e vermelhas palpitando contra o céu. As ruas estreitas, curvas e empinadas, retumbavam de vozes estrangeiras, e em todas as portas, em todas as passagens e becos calçados de pedras, apareciam rostos morenos e vorazes, soavam palavreado profano, gritos, risos e exclamações. As lojas fervilhavam. Os gritos dos mercadores deixavam os demais ensurdecidos. Camelos queixavam-se, bigas passavam em disparada ruidosa. Asnos zurravam, e havia um cheiro quente de carne assada, vinhos, acidez, e de especiarias em bolsas aquecidas, ao longo das ruas. Judeus, sírios, sicilianos, gregos, egípcios, tessalonicenses, negros, gauleses, bárbaros de várias procedências  e metidos em roupagens estranhas caminhavam ou esbarravam uns nos outros por todas as ruas, levantando nuvens de espessa poeira tranca que a luz do sol tocava. Havia, aqui e ali, discussões acaloradas e brigas e edifícios pálidos e brilhantes salientavam-se no ar. Crianças brincavam nos caminhos de veículos e animais, xingavam os que os conduziam ou montavam, e pediam esmolas, suas faces impertinentes bronzeadas de sol.
Lucano gostava da cidade fulgurante e ela o excitava. Viu homens e mulheres entrando em pequenos templos de coluna, com pombas e cabritinhos sob o braço. Viu as flâmulas brilhantes e sentiu o cheiro do feno aquecido e a pugência do pó. Teve esperança de que Keptah o levasse à taverna favorita do médico, mas este passou por ela sem sequer lhe dirigir um olhar. Soldados romanos namoricavam moças vestidas de cores vivas, e sentiam-se particularmente atraídos pelas que usavam véu no rosto. Pilheriavam com as jovens, e olhos escuros relampagueavam à luz do sol. O ruído era uma presença palpável no ar quente e picante, que trazia em si um odor de alho e excrementos.
'

As descrições são minuciosas, tanto as físicas como as psicológicas e isso, para um leitor apressado ou que prefere digerir o 'fast food' da literatura descartável de hoje, poderá ser "cansativo". Não considerei o livro cansativo, em nenhum momento, já que a autora sabe dosar períodos de intensa atividade das personagens, com pequenos dramas familiares ou grandes catástrofes sociais e/ou naturais. Também polvilha a narrativa com sua graciosa maneira de embelezar tudo: Tudo para Taylor Caldwell tem sua beleza, quase todas as mulheres são belas à sua maneira. Os homens tem seu lado cativante ou que atrai o leitor, com exceção do personagem de Herodes Antipas, que ela faz questão de mostrar em toda sua fealdade, física e espiritual. Até o controverso Pôncio Pilatos ou o imperador Tibério, descrito por historiadores como irascível e brutal, nas tintas de Taylor Caldwell parece mostrar-se em toda sua fragilidade humana, com defeitos compreensíveis (ao esperto Lucano, quando conversa com o imperador) e até algumas qualidades.

Enfim, um dos principais personagens na história, quase um segundo protagonista, é Jesus de Nazaré -- o Deus Desconhecido encarnado, como diria o professor de Lucano, Keptah. Jesus não irá surgir na história de súbito, nem Lucano tampouco terá a felicidade de conhecê-lo pessoalmente, mas sim aos poucos, através das narrativas de personagens secundários: Primeiro, será o Deus Desconhecido, a quem os antigos gregos sempre homenageavam ou faziam libações, um Deus misterioso, que ninguém conhecia direito, quase uma névoa espiritual; porém sempre e sempre presente. Depois, Lucano ouvirá falar que "o Deus misterioso dos antigos iria nascer no mundo dos homens", depois ouvirá relatos estranhos de gregos, sírios, romanos sobre um misterioso 'rabi' nascido entre os judeus... E continuará descrente e sentindo-se vazio e incompleto. Até chegar o dia em que o conhecerá, mesmo que através de narrativas, dentre essas, a da própria Maria, mãe de Jesus.


Outro personagem cativante, grandioso e por quem o leitor sente intensa simpatia, é o tribuno Diodoro Cirino, pai de Rúbria, o primeiro amor de Lucano e senhor (ou 'patrão') de seu pai, o liberto Enéias. Diodoro encarna a velha estirpe dos romanos sérios, viris, cujos princípios morais estão à frente de tudo, inclusive e principalmente, dos apetites mais baixos próprios dos homens "fracos e afeminados", como ele diz, da época.

Esse trecho, quando Diodoro fala diante do Senado romano, é especialmente atemporal e parece ter sido escrito por algum autor brasileiro: Substitua-se a palavra "Roma", por Brasil; "romanos", por brasileiros; "césares", por "líderes de partidos", "império" por "república" e "Palatino", por "Brasília":

"Abriu a túnica no peito, e a armadura tombou ao solo, retumbando:
- Olhai para as minhas cicatrizes, para a evidência dos meus ferimentos! Vós, senadores, vós, canalhas, vós, mentirosos perfumados, olhai para os meus ferimentos! Vós, velhacos e ladinos, que vos deitais sobre sedas ao som das liras e sob o murmúrio das mulheres prostitutas e dissolutas, e das concubinas compradas... Olhai para os meus ferimentos! Estão eles em vossa carne lisa? Há ferimentos semelhantes em vossos corações que traem Roma a cada movimento respiratório e levam-na para o inferno com cada lei?
Virou lentamente seu peito nu e coberto de cicatrizes, para que todos o pudessem ver. Era uma visão terrível, e alguns dos senadores mais velhos cobriam os olhos com as mãos.
A voz de Diodoro ergueu-se e estava mais profunda em gravidade e força:
- Tais feridas estavam na carne do senador que enviastes à morte naquele dia. Não com uma espada honesta, não com um estoque embotado, mas com mentiras e condenações, com ostracismo e com silêncio. Porque ele ousara amar sua pátria, e ousara tentar salvá-la de traidores, assassinos, ambiciosos e mentirosos! Seu coração partiu-se e não houve conforto para ele.
“Poderíeis vós confortá-lo, vós que traístes vossa pátria e sustentastes vossos traiçoeiros césares? Ousaríeis confortá-lo, vós, cujas línguas envenenaram seu próprio sangue e o levaram à morte? A ele, o único que amava seu país e inocentemente acreditava que também vós amásseis vosso país?
Diodoro tornou a bater na estante, e agora pareceu a alguns senadores que o próprio Marte produzira aquele som em seus ouvidos.
- Deixai-me comover vossos corações! Exclamou ele. – Ainda não é tarde demais! O curso do império conduz apenas à morte. Senadores, olhai para mim! Ouvi com vossos corações, e não com vossas mentes malévolas. Voltai à liberdade, à frugalidade, moralidade, à paz, a Roma. Não penseis mais nos que vos elegeram naqueles cujos ventres exigem, para se satisfazerem, o próprio sangue de Roma, a própria carne de Roma, o ouro duramente ganho de Roma. Não vos inclineis mais diante de falsos Césares que desabando nossa própria Constituição, lançam mandatos contra o bem-estar de Roma e colocam-se acima da lei que nossos pais formularam, e pela qual ganharam suas vidas, suas fortunas e sua sagrada honra.
“Roma foi concebida com fé e justiça, e na veneração de Deus, e em nome da varonilidade do homem. Devolvei esse país ao governo da lei e derrubai o governo dos homens. Restaurai os tesouros. Retirai nossas legiões dos países estrangeiros que nos odeiam, e que nos destruirão num relance, assim que isso sirva aos seus interesses. Repeli os impostos que esmagam os que trabalham dura e industriosamente. Dizei às multidões que devem trabalhar ou morrer à fome. Arrancai do próprio Palatino as massas de parasitas, aproveitadores e ladrões! Arrancai do Palatino os mesquinhos libertos que dizem "sim, sim" a César, e se inclinam diante dele como se fosse um deus e não um ser feito de carne humana! Limpai este local dos velhacos, charlatães e demagogos que declamam frases arredondadas, dizendo que o bem-estar do povo está dentro de seus corações, mas que realmente querem dizer é que farão a vontade das turbas em troca de seus aplausos, poder e suborno! "

Enfim, o livro é um grande épico. Comovente em todos os episódios da vida e da busca incessante de Lucano, o jovem médico grego, filho adotivo de um tribuno romano, que se tornou cristão e um dos mais famosos e amados santos da Igreja Católica.


Jay Anson - 666, no limiar do inferno

Sinopse:
O casal Keith e Jennifer volta pra casa após curtas férias e, atrás de seu quintal percebe uma casa que não estava lá antes: um casarão vitoriano que foi transportado até lá enquanto viajavam. Acontece que a casa não é necessariamente abençoada: ao investigá-la, Keith descobre que o antigo morador assassinou a amante e o cunhado lá dentro. Mas a casa causa certas sensações estranhas nele, justificadas conforme o desenrolar da história. Uma série de acontecimentos estranhos se inicia.

Resenhando...
O livro é de terror, o clássico terror à la anos 80. Notei alguns comentários pela internet, aqui e ali, reclamando que o livro de Jay Anson "666" não era "tão bom quanto Horror em Amityville", ou que o autor segue um caminho muito bonitinho, retinho, que leva a um final brusco e previsível, lembrando os velhos filmes de terror dos anos 80. Oras, mas se o livro FOI ESCRITO na década de 70, como poderia ser diferente? O que querem os leitores, se o autor, além disso, era roteirista de cinema? É natural que sua escrita seja homogênea, simples, rápida, sem estilo mesmo, exatamente como um roteiro de filme. Aliás, nem tão "simplista" assim, porque o livro é bastante agradável de ser lido, justamente porque lembra -- ou nos faz imaginar as cenas de -- um filme. 


Outra característica que os leitores atuais depreciam, é a temática do livro (que julgam ser muito 'batida'): a história de uma casa assombrada, famílias sofrendo com o assédio demoníaco, um mistério, crimes, tudo isso envolto por uma atmosfera 'cine-terror', do tipo que mete medo, mas a conta-gotas. 

Pois justamente por tudo isso é que a história é facilmente compreendida, daí tornando a leitura fluída, rápida e viciante: você começa a ler e de repente, está às voltas com uma casa, um chalé estilo vitoriano (bem igual aos dos filmes clássicos de terror) e que é transportando, ou seja, tirado de uma cidade e levado em cima de algum gigantesco veículo, para outra cidade. O número 666 é o número da casa fatídica. Quando Keith entra no tal chalé, começam os incidentes, o mistério se adensa; outros personagens começam a participar da história. Em pouco tempo, o leitor "desliza" pela trama com tal facilidade, com tal leveza, que é impossível não se sentir na pele dos protagonistas.


O que posso resumir da escrita de Jay Anson? Ótima para quem gosta de terror, principalmente para quem prefere o terror clássico e a linguagem simples, direta, porém sem perder o tom sombrio e os arrepios típicos desse tipo de literatura, que eu classificaria como bestseller gótico. 


Nenhuma das sofisticadas reviravoltas de Stephen King aqui, nada do old gothic de Edgar Allan Poe ou dos terrores ancestrais de Lovecraft: Mas não deixa de ser um prato cheio para quem gosta de um bom terror, com direito a casa assombrada, casal ou família simpática como protagonistas, um bom padre que quer ajudar e um tremendo, horrendo, Mal que supera a todas as expectativas.

Coelho Neto - O Morto


Memórias de um fuzilado...
Livraria Chardron, Porto, 1912.

O AUTOR: Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) escritor, político, professor, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta.  Usou entre outros os  seguintes pseudônimos:  Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés. 

Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado.